sexta-feira, 27 de maio de 2016

BATE PAPO LITERÁRIO NO CELEIRO - POEMA ESSENCIAL EM FERREIRA GULLAR

​​Professor/escritor Ronaldo Alves Mousinho

Tradicionalmente, a matéria bruta para a alquimia poética é a palavra, constituída pelo verbo, substantivo, adjetivo, adjuntos, palavras e expressões de ligação, organizados com numa ordem sintática, com ritmo, sentimento, objetivando Arte poética.

Até 1922, por ocasião da Semana de Arte Moderna e comemoração centenário da independência do Brasil, vivíamos subjugados ao cânon europeu, especialmente ao lusitano, com uma tirania da sintaxe e da gramática, representada especialmente aqui no Brasil pela retórica melosa Parnasiana e a de Rui Barbosa e Coelho Neto, a que Lima Barreto denominou de pedantocracia bacharelesca. Isto criava um grande abismo entre a linguagem oral do povo e a linguagem literária.

Um dos pressupostos da Semana de Arte Moderna era o de elevar nível coloquial e a fala brasileira à categoria de valor literário e destruir a linguagem poética tradicional, optando por versos nominais, exclamativos, concisão da linguagem, abandono da pontuação e uso do verso livre, prestigiando os temas sociais e a realidade concreta.

Influenciados pelas vanguardas europeias, como futurismo, expressionismo, dadaísmo, surrealismo, os Modernistas atuaram em três momentos: o primeiro, o mais radical, destruidor de toda a tradição literária e implantando uma lit. nacional; o segundo, menos radical, incorporou a nova tendência, mas não abdicou totalmente de algumas formas tradicionais, e a terceira, retomou a tradição.

Na década de 50, os poetas vanguardistas e inventivos como Ferreira Gullar, Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos se insurgiram contra a poesia estagnada no seu formalismo e introduziram a poesia concreta, veiculada na revista Noigandres, que significa antídoto ao tédio, que circulou de 1956 a 1962.

 O poema concreto é constituído de palavras geometricamente dispostas sobre uma superfície, onde o espaço assume papel importante – o ideograma- numa comunicação não verbal, analógica-visual, ou seja, acrescentando ao elemento auditivo, o visual.

A expressão que bem define a poesia concreta em sua estrutura, em que as palavras não aparecem na forma ordenada da frase, mas analógicas, soltas, autossuficientes, é:  PALAVRA –SOM – FIGURA OU REPRESENTAÇÃO, na equação verbivocovisual (em 3 níveis: semântico, visual e sonoro).

Ex:  Ele                         ela     

                    elo

       anel                     anelo

 Todas as palavras (ele, ela, elo, anel, anelo) prendem-se à ideia central da palavra "elo", na sugestão de "anelo", que impulsiona os dois namorados (ele e ela) à união real, simbolizada no convencionado "anel".

 

A brevidade e concisão da poesia concreta retoma, de certa forma, a mesma linha evolutiva do poema-pílula, de O. Andrade, na década de 20, e por quem tinham simpatia os concretistas.

Gullar logo se manifesta insatisfeito com o concretismo, por vê-lo desvinculado da realidade sócio-política: "A redução do discurso e do poema a um mero signo visual acaba por dificultar qualquer referência à realidade concreta ... excessivamente racionalista". E segue a insatisfação do poeta em busca do poema ideal.

O vislumbre do poema essencial – Para Gullar, não se trata de subestimar a técnica e o domínio da expressão poética, mas torná-la uma sabedoria do corpo, como se o nascimento se equiparasse ao do fruto de uma árvore, produto perfeito e natural, veículo e resultado de uma elaboração profunda, insondável, porém, particularizando-se no aspecto de que fruto é igual a outro, enquanto que, cada poema deve ser único, inconfundível, com linguagem própria. Eis um protótipo do poema essencial de Gullar, de 1956.

Ex: Velhos sóis que a folhagem bebeu,/ luz, poeira, agora tecido no escuro./ Alto abandono em que os frutos alvorecem e rompem!/Mas não se exale a madurez desse tempo:/e role o ouro, escravo, no chão,/para que o que é canto se redima sem ajuda.

Mas o poema essencial exigia salto mais ousado do poeta, não apenas na ruptura com a sintaxe e o discurso, mas também com o conceito, subvertendo-se também a própria palavra, rumo ao seu desmembramento, e ao do fonema.  E é assim, no poema Roçzeiral, em que Gullar crê ter encontrado a forma do poema essencial, vez que lhe nasceu de uma experiência vivida: os canteiros ressequidos da Praia de Botafogo antes cobertos de flores e que no verso: AO SOPRO DA LUZ A TUA POMPA SE RENOVA NUMA ÓRBITA

é reinventado com subversão tanto da linguagem, quanto das palavras:

 AU SÔFLU E LUZ TA POMPA INOVA ÓRBITA, em que Gullar confessa que alcançou esta forma inusitada em estado de transe, que o radicalismo da subversão estrutural o levou.

Eis, portanto, a receita do poeta Gullar para o poema essencial: violentar a sintaxe, destruir o discurso e, com isso, revelar o que ele oculta. E conclui: a história é quem cria as formas revolucionárias; o novo não é apenas a evolução formal, como quer a maioria das vanguardas, mas participação nos rumos da vida social. E o próprio Gullar confessa que, se prosseguisse nessa busca desatinada pelo verso essencial,  alcançaria a própria loucura.

Ferreira Gullar é maranhense de São Luís, poeta, ensaísta, dramaturgo, ficcionista, tradutor e crítico de arte. Estreou em 1949, com o livro Um pouco acima do chão, poemas, edição Independente, São Luís-MA. Mas o próprio Gullar considera seu livro de estreia A luta corporal, poemas, ed. Independente, 1954-RJ, e que, ao lado do livro Poema sujo, 1977, 2 ed. Civilização Brasileira, RJ, constituem as obras mais famosas do poeta. E sobre Poema Sujo, disse Vinícius de Moraes: Gullar é o último grande poeta brasileiro. O poema sujo é o mais importante poema escrito no Brasil nos últimos dez anos, pelo menos. E não só no Brasil.

Fonte de consulta

l. MOUSINHO, Ronaldo Alves.  Lit. de Homero à contemporaneidade, enfoques histórico, teórico e prático, Editora Ideal, chancelado pelo FAC, 2002-DF.

2. Vestibular- gramática e literatura, Abril Cultural, 1974.

3. GULLAR, Ferreira. Poema sujo, Civilização Brasileira, 1977, RJ.

Brasília, maio de 2016.

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