terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Choro ao jacarandá

Chorei no catre abençoado Por pão, calor e armadura Insipiente do que era a vida Se devastação, se semeadura Embalaram-me mãos dos meus Ricas de saber ancestral E o leito que me acolheu Era Jacarandá roxo real As gavetas de guardar sonhos E o baú rangedor da velha casa Dos trapos e medos medonhos Era de puro Jacarandá caroba O quase indestrutível armário Aonde, na madrugada nua, Meus medos fugiam da rua Era jacarandá de espinho A longa mesa de jantar frutífera Suportando quentura e coisa dita Que tudo ouvia, da prole bendita De jacarandá preto que eu amava E o banco fora, onde brisa e conversa Esfregam-se em nós, sob as estrelas Firme, ao seu dever resignado É jacarandá de campo aplainado Mas a consequência de correr machado Na mata atlântica que eu não plantara Sem ver que o mundo seria mudado Foi a flecha, que alguém me atirara Jacarandás, todos vós Que tanto me alegrastes. Hoje, sem de nada valer, Tristemente, eu vos choro.


Hezio Teixeira



4 comentários:

  1. Hézio, gostei muito de Choro de Jacarandá, que sensivelmente resgata memória marcante de infância.

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  2. Respostas
    1. Obrigado, meu caro intelectual que não sei quando é Neruda, quando é Lorca. Talvez seja eu nunca saber. Sempre buscarei ambos em ti.

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