sexta-feira, 11 de agosto de 2017

​ Estreia poética de D’Gáudio Procópio em Portal das Almas - ​*Ronaldo Alves Mousinho


Portal das Almas, de autoria de Josafá Araújo Procópio, poesia, edição independente, com apoio cultural de Orto-Med, Art Final Cópias Ultra Rad e do Dr. Alexandry Dias Carvalho, 71 páginas, 2012, Teresina-Piauí.

D'Gáudio Procópio é pseudônimo do poeta estreante, maranhense domiciliado em Teresina há quatro décadas, e com marcante atuação nos movimentos populares de esquerda.

Compõe-se o livro de poesias (os floretos, 1ª parte, à exceção do poema de abertura, denominado O Portal das almas) e poemas, à exceção do floreto que fecha o livro),  transitando pelas temáticas de confragação, tragicidade, justiça social, desilusão amorosa, visão apocalíptica, fatalítica, de esperança, do místico. da espiritualidade, da eternidade da vida, doutrinária, ufanista, particularmente telúrica.

 Nota-se uma obsessão do autor por um léxico erudito, caindo por vezes em exageros  e no ininteligível; ocorrência de pleonasmos superlativos e algumas impropriedades lexicais; e, por outro lado, a utilização de um vocabulário mais corrente, natural e bem mais próximo da linguagem oral, prevalente nos textos modernistas e de temáticas circunstanciais. São dois níveis inconciliáveis de estilos, mas que, no futuro, o autor encontrará um meio termo, resultante do confronto de ambos e do exercício continuado. Eis alguns fragmentos de linguagem erudita, em Portal das Almas, porém confusa e contraditória: "Um furor devastador, agonia intensa", "debate-se inerte", O engodo lhe mente", "Transforme-se o indouto em douto do proveito", Uma sombra inerte aos tormentos", "Ser mestre é ser indiferente a raça, credo, cor", "Por ser o inerente do descompasso abstrato", "Louco que desconhece a plena razão", "O amor é uma sombra inerte aos tormentos".

A alma é tema recorrente, já a partir do título, assim também a morte. O autor  manifesta simpatia por elementos clássicos, particularmente na titulação de alguns poemas (Diva, Musa, Hades, F|ênix, Lira).

O autor declara, em nota de abertura do livro, ter dado nova versão ao soneto, a que denominou floreto, numa composição sintagmática de flores+soneto, livre de métrica,  obedecendo sempre, às rimas padronizadas (o que nem sempre ocorre), e destoando ainda da forma original da espécie clássica quanto ao número de tercetos, que no floreto poderá  comportar três tercetos.

Ao longo dos séculos, no entanto, o soneto clássico sofreu alterações na forma, com o acréscimo de um terceto, denominado estrambote; na variedade de sílabas métricas, o nominado versos heterométricos, variando dos monossilábicos ao Alexandrino; nos versos livres de qualquer rima, e, ainda, todo o soneto composto em única estrofe de catorze versos.

A ideia de inovar é sempre positiva, especialmente quando revelo o novo aprimorado. E neste caso particular valeu pela criação do neologismo floreto.   

É oportuno lembrarmos de alguns preceitos indispensáveis a quem envereda pela especial alquimia poética. Praticar a autocrítica, que resulta do autoconhecimento e disciplina do raciocínio, para agir com objetividade, sem preconceito e cm imparcialidade; saber exprimir em palavras, organicamente relacionadas, uma visão plena do mundo. Isto é o que nos lembra o nosso conterrâneo e saudoso gênio em juventude Mário Faustino.

D'Gáudio Procópio é poeta de forte inspiração, disciplina e razoável aptidão poética, iniciando uma ´promissora  caminhada.

Brasília, agosto de 2017.

·         Ronaldo é professor, escritor e Juiz de paz, piauiense radicado em Brasília.

​A Engenharia Poética de Domingos Pereira Netto. ​*Ronaldo Alves Mousinho

Nos livros A canção da manhã acesa em teus olhos, 112 páginas, e nO incêndio dos passos, 112 páginas, ambos poesia em 2 ed., 1999-DF, pelas editoras TC Gráfica  e Vestcon, tem-se uma  alquimia de fortes emoções, fustigadas ora pela poesia de resistência e libertária ( Aurora civil e A olha nu), ora pelos meandros imprevisíveis do amor extasiante, ausente, aniquilante e escapista (Essência, Engenharia mutilada, Ruínas), ou ainda pela fugacidade de um tempo que se esvai célere, implacável para o poeta, em busca ansiada por uma utopia possível. E é nessa ciranda aprisionadora que a persistência instiga o poeta a prosseguir (Lições da manhã, Antes do último pouso).

Riqueza de recursos imagéticos, como prosopopeia, hipérbole, antropomorfismo, perífrase, metonímia, paradoxo, sinestesias e metáforas, em agudos saltos dramáticos, já no poema de abertura do livro O incêndio dos passos, são marcante no estilo do poeta, a lembrar a grandiloquência do poeta condoreiro. Para tanto, vale-se o autor Domingos dos elementos cósmicos, correlacionando-os ao eu-lírico intenso, e ao cronos – componente de uma quase  tragicidade a limiar o amante submisso (Nebuloso, Incêndio, Cegueira).

E mesmo nesse redemoinho conflitivo – carência de amor e de justiça social, em fatídico niilismo (Órfão de mim), o poeta é acossado por lampejos eróticos  (Carne em fogo), estimulado pela quarentena amorosa (Algemas).

O poeta Domingos é detentor de um estilo bem pessoal, intimista, dorido, ansioso por conciliar paz física e espiritual, especialmente no livro A canção da manhã acesa em teus olhos, em que prevalecem as metáforas inteligentemente elaboradas.

Partindo das sendas intimistas, o poeta projeta-se em dimensão universal, em aguda comiseração, no paradoxo libertação versus submissão, em que digladiam esperança e pessimismo, utilizando-se de um léxico bem seletivo, por onde deambula  circunstancialmente notívago.

De todo o livro A canção da manhã acesa destoam alguns flashs de infância da temática amorosa prevalente, e no segmento que principia com Pouco importa (página 53), pois o livro constitui-se de uno e longo poema, verifica-se a mais bela revelação criativa do autor, nas temáticas sensual e erótica.

A dor do poeta Domingos é a dor de muitos, especialmente a dor por justiça, porém, não a dor do amor, pessoal, intransferível. E é nesta que os leitores se solidarizam com o autor, pela força com que nos sensibiliza.

E, "...À medida que nos embrenhamos nA canção da manhã...ardemos nas chamas desse incendiário dos sonhos", como apropriadamente nos revelam no posfácio o professor e poeta Filemon Félix ;  e  "... nos ensina o poeta, em O incêndio dos passos, que é preciso "furar a membrana do tempo", ultrapassando "as artérias vivas do dia, para que possamos penetrar sutil e verdadeiramente na " pupila do sol", no prefácio, o poeta Menezes de Morais.

 

Brasília, agosto de 2017.

 

*Ronaldo é Professor, Escritor, Juiz de Paz.