sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

PROSA, POESIA, POEMA E POEMA EM PROSA, PROSOEMA OU PROSA POÉTICA

A Poética é a filosofia do Belo e estuda a poesia e o poema.

O Belo para Platão é o esplendor da verdade. Porém há verdades que não são belas: um enunciado científico; uma tragédia. 

Para Aristóteles, o belo consiste na beleza e na ordem, e para quem a beleza tem as gradações: sublime, belo, bonito e gracioso.

Para Sto Tomás, belas são as coisas que vista agradam.

A missão do artista é criar o Belo; e há beleza em sentimento elevado ou condenável.

A arte é a superior forma de conhecimento intuitivo. A intuição é inata, gratuita. Já o conhecimento conceitual é lógico ou intelectual, adquirido pelo estudo.

Ex: Definição denotativo e conotativa do crepúsculo: “É a luz fraca que precede o nascer do sol e persiste algum tempo depois de em si pôr”. “E à tarde, quando o sol – condor sangrento, no ocidente se aninha sonolento, como as abelhas na flor...” (C.Alves).

A Literatura serve-se de dois elementos: da mente e da palavra.

Distinção entre Poesia, Poema e Prosa

Poesia – arte de escrever em versos e de composição pouco extensa. Predominam os versos medidos, ou de forma fixa, em que o elemento melódico é determinado pela ocorrência de alternância regular a tonicidade e atonicidade das sílabas poéticas.

Poema – Composição literária com intenção poética, podendo ser em verso ou prosa. São exemplos em verso o poema épico ou epopeia, narrativa extensa e com enredo (além da narrativa, a presença do heroísmo, assunto nacional, o maravilhoso), e poema heroico (narrativa de um fato menos importante, “façanhas de um varão notável”, e de interesse nacional), e a composição em prosa, em que há ficção e estilo poético.

Prosa – composição em linguagem cursiva e denotativa, distribuída em períodos e parágrafos.

A Prosa Poética, Poema em Prosa ou Prosoema.

A poesia pode estar contida numa linguagem versificada ou em prosa. Quando apresentada em prosa, denomina-se poema em prosa ou prosa poética, e se dar quando ocorrem as características: conteúdo lírico emotivo, recriação lírica da realidade, utilização artística do poético, linguagem conotativa ou de carga lírica, com imitações sonoras e rítmicas.

O poema em prosa pressupõe uma vontade consciente de organização do texto em poema ritmado. A linguagem é lírica, impregnada de subjetividade, com expansões sentimentais.

Explora os valores conotativos das palavras, com a ocorrência das figuras de estilo, e, por vezes, o recurso rítmico da cadência.

Muitos escritores contemporâneos escrevem, deliberadamente ou não, em prosa poética ou prosoema. Aqueles, por conhecerem a teoria da tradição poética; e estes, mesmo a desconhecendo, valem-se da inspiração e de uma certa aptidão para o poético. Com a utilização do verso livre, surgiu o ritmo interior ou psicológico, que fica à mercê do leitor descobrir o “clima” poético que o poeta pretendeu dar ao seu poema.

O ritmo está tanto na poesia quanto na prosa. Na prosa predomina o ritmo lógico, percebido pela pontuação subjetiva (ponto de interrogação e de exclamação, reticências e parênteses), as objetivas (ponto, vírgula, dois pontos) e as distintivas (aspas, hífen, parágrafo, chave). O ritmo lógico atribui expressividade ao texto e entoação, marcadas nas pausas respiratórias, nas alternâncias ascendentes e descendentes do movimento da leitura, no timbre e altura da voz.

Já o ritmo melódico é aquele determinado pela ocorrência de vozes tônicas culminantes e de átonas alternadas.

Foi a partir das Aventuras de Telémaque, narrações fabulosas em forma de poemas heroicos, de Fénelon (prelado e escritor francês, 1651-1715) e nas traduções de Homero e Ossian( este, poeta irlandês lendário do Séc. III, de estilo grandeloquente), em prosa metafórica e musical, e com a influência bíblica, Salmos de Davi e Cânticos de Salomão, que a prosa poética ou poema em prosa foi se firmando.

Em Portugal verificou-se essa espécie com o advento do Simbolismo. Em 1889, de Francisco Bastos é o poema Fugiu, misto de prosa poética em linguagem versificada; em 1893, de Antero de Figueiredo, com o texto Trístia, dentre outros.

No Brasil, as primeiras manifestações da prosa poética foram com José de Alencar, sob a influência do Romantismo Europeu, com uma linguagem de acentuado tom lírico, repleta de imagens ritmadas, em que a sonoridade musical se destaca no seu poder sugestivo e nas palavras em si. Ex. O mais expressivo é o romance Iracema, um romance-poema epopéico ou um poema em prosa. E essa tendência romântica de explorar a sonoridade das palavras para obter na prosa musical os efeitos poéticos, corresponde exatamente ao conceito de romance de José de Alencar, que o entendia como uma visão lírica da vida.

Também são exemplos Gonçalves Dias, com a obra Meditação, e Junqueira Freire, no prefácio de Inspirações do Claustro. No final do Séc. XIX, destacam-se Raul Pompeia e Cruz e Sousa, este no Simbolismo. E Raul, além de O ateneu, a obra Canções sem metro, reconhecidos como os primeiros mais delicados poemas em prosa da literatura brasileira. De Cruz e Sousa, a obra Missal e Evocações é a prosa poética simbolista apoiada na musicalidade poética obtida pelo jogo de vogais na palavra e das palavras na frase, em que o seu sentido lógico se desfaz com a indisciplina gramatical, redundando frequentemente numa prolixidade exaustiva.

No Modernismo, destaca-se a prosa poética com Mário de Andrade, em Macunaíma, em Rubem Braga, cronista, com A borboleta, e, mais recentemente, 1956, João Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas, também reconhecida como epopeia em prosa, assim como Os sertões, de Euclides da Cunha. Vejamos alguns fragmentos: “Sol, rei astral, deus dos sidérios Azuis, que fazes cantar de luzes os prados verdes, cantar as águas! Sol imortal, pagão, que simbolizas a Vida, a fecundidade! Luminoso sangue original que alimenta o pulmão da terra, o seio virgem, da natureza!” (Cruz e Sousa, Oração ao sol, em Missal).“Era por uma dessas tardes em que o azul do céu oriental - é pálido e saudoso, em que o rumor dos ventos nas vergas – é monótono e cadente, e o quebro da vaga na amurada do navio – é queixoso e tétrico” (Castro Alves, prólogo do livro Espumas Flutuantes).

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares que brilhais, como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, prolongando as alvas praias ensobradas de coqueiros.” (José de Alencar, em Iracema).

Brasília, outubro de 2015.

Fonte: Lit. de Homero à contemporaneidade..., Ronaldo Alves Mousinho, chancela do FAC, 2002; Dicionário de Literatura Brasileira, Portuguesa e Galega Literária, direção de Jacinto Prado, 3ª ed., Lavra Livros, 1978, Porto-Portugal; Teoria Literária, Hênio Tavares, 7ª ed. Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1981; Novíssima Delta Larousse Enciclopédia e Dicionário, Editora Delta, RJ.

(Texto inaugural ao Bate papo literário no Celeiro Literário Brasiliense).